Contadora de histórias

outubro 13, 2011

Era involuntário, qualquer movimento servia de impulso para a imaginação. Estava sentada num banco de praça perplexa por haver ali tantas histórias a serem contadas. Talvez um livro de contos não seria suficiente, talvez um livro para cada história não bastaria. E tentava entender porque ainda existia pessoas que julgavam aqueles livros que perambulavam pela cidade, uns apressados outros apenas vendo a vida passar. Perguntava-se o que levava os seres humanos a julgarem um livro pela capa ou pelo resumo da contracapa. Ela se interessava por cada história particular, queria de certa forma ler e reler cada capítulo. E, numa atitude tola, tentava adivinhar quais os fatos conduziram ao clímax do agora. E queria entender porque os seres julgavam tanto a ponto de esquecer que eles próprios tinham histórias, que eles próprios tinham motivos o suficiente para ter certas atitudes. De certa forma esses seres ignoravam que também eram livros, como se eles não quisessem aceitar o que são ou como se achassem sábios o suficiente para condenar uma má história. Ficava confusa com essas questões aparentemente sem respostas, ela só queria entender. Concluiu, enfim, que o único sábio dessa vida é o Autor, o possuidor de uma criatividade inatingível, incapaz de julgar suas próprias obras.

Peças de um quebra-cabeça

setembro 27, 2011

Misturei vários textos e fiz um único, como peças para formar um único quebra-cabeça.

Encontra-me de um jeito estranho, convide-me para sentar em um bar estilo americano, convença-me de que a sua música preferida descreve a nossa história. Escreva um poema, peça um café para nós, olhe nos meus olhos e ria das minhas caretas. Diga que nunca é tarde, que adora a solidão do frio que aproxima as pessoas. Seja um mistério, faça-me acreditar que sou indecifrável. Chegue de mansinho, pegue na minha mão e diz apenas que vai ficar tudo bem. Peça para trocar a música da jukebox, recite a letra como se fosse escrita especialmente para mim. Tome um gole de café dizendo que prefere chocolate quente, olhe para a janela e se perca por alguns segundos nos próprios pensamentos. Pegue suas anotações, mostre-me coisas lindas que escreveu sobre nós. As lágrimas sairão através de uma felicidade medrosa. Passe delicadamente as mãos em meu rosto, pague a conta. Apresse-se para viver com a vida, jogue nosso “diário” fora dizendo que escreveremos nova história. Ligue a moto e fuja em alta velocidade, as mãos entrelaçadas à sua presença. Importe-se com a liberdade, siga apenas a estrada infinita sem atalhos ou destino. Afaste-me dos medos, ensina-me a viver. Torna-te único à mim, pois serei única à ti. E se mais tarde sentires saudade, fugimos de volta para casa. Porém, nunca seríamos os mesmos: uma calmaria fundiria-se à corações acelerados e respirações ofegantes. “É a vida te guiando, é você se vivendo”. Sem explicações, nós nos encaixaríamos. E seria tão bonito quanto a primavera, que chega aos poucos e nos arrebata com ventos cortantes. Você virou-me do avesso… um avesso que me faz tão bem.

Doces sonhos

setembro 22, 2011

A moto estava em alta velocidade. As mãos firmes e entrelaçadas à presença dele. Sentia-se flutuar, enquanto a paisagem corria, enquanto o tempo voava. Não tinha medo da adrenalina que pulsava em suas veias, a sensação era maravilhosa. Era a liberdade. Mas ele estava ali, guiando a moto. Parecia se importar apenas com a próxima curva, com o barulho feroz do motor. Ela? Não se importava. O céu estava lindo, o calor era delicioso e o vento cortante. Aquela fuga não era programada; não para ela. Quem sabe ele já tinha todo um esquema desde o dia que se conheceram. Estavam indo embora. Seguiriam a estrada apenas, sem atalhos e destino. Pertenciam à vida agora. Pertenciam a um único destino. Havia a necessidade da mudança, do impulso infantil para viver. Arriscariam, aprenderiam novas culturas, leriam livros, tomariam diversos cafés, conheceriam lugares, colecionariam fotos. Viveriam, sentiriam saudades, mas nunca se apegariam. Aqueles medos seriam superados, as distâncias seriam encurtadas. E, se mais tarde descobrissem que não era aquilo, voltariam. Fugiriam de volta para casa. Mas nunca seriam os mesmos, não depois de experimentar do melhor. Talvez precisassem só de um descanso. Eles apenas flutuavam na moto. A estrada passava rápida sobre seus pés. Era a vida em movimento.

E a vida é curta.

Perde-se tempo demais criando as fantasias.

Ela estava em frente à janela, admirando a casa vizinha. A moto estava lá na garagem, o veículo que a traria vida. Era só subir na garupa e sair por ai flutuando. Mas perde-se tempo. Falta coragem. Inventa-se obstáculos e desculpas para não se alcançar a felicidade que está ali ao lado. Uma lágrima cai e caminha até a boca. Ele sai, sobe na moto e vai embora. Mais um chance desperdiçada, mais um dia perdido. Mais um coração despedaçado.

Paisagem além dos olhos

setembro 20, 2011

Eu perco a noção de espaço e tempo quando observo a paisagem verde da minha janela. O céu azul e o sol transposto muda a cada meia hora. É o mesmo céu, – não a mesma nuvem – mas eu sinto alguma coisa fora do normal. Tenho um espetáculo a parte no crepúsculo: o sol reflete entre as nuvens um cenário digno de uma arte. A noite pode ser normal aos olhos de qualquer um, mas ela me inspira: a lua me transmite algo a mais. Desde criança acho que, toda vez que observo o luar, alguém pensa em mim. É como se a própria lua, com toda sua luz e soberania, olhasse para mim com um sorriso malicioso e, secretamente, fizesse planos. E eu a admiro, desejando conhecer a beleza sublime, tentando absorver toda essa magia. Quando os pensamentos sessam, vou dormir com a certeza de que alguém realmente pensa em mim. Será?

Texto feito em 16 de maio de 2011 – término: 23hr e 23min. 

O amor que desabrocha aos 18 anos

setembro 10, 2011

Mensagens que chegam de madrugada, conversas bobas sentados na escada. Um banco de praça torna-se o lugar perfeito para uma história de amor, um chão duro transforma-se em um campo cheio de flores macias. O sol já não queima mais, a chuva já não traz mais paz. Nada de pressa, o tempo para e o mundo continua a girar. Apenas olhares, carinho e toda a presença que pode ser consumida de imediato. Coração cheio bombeando sangue, sentindo o calor do contato entre peles que se encaixam. Sorriso com pupilas dilatadas e essa tal de espontaneidade. Uma calmaria que se mistura com corações acelerados e respirações ofegantes. A certeza de que não quer que acabe, mesmo que. Aperto de um coração transbordando de uma coisa que não se define. Qualquer refeição torna-se um jantar a luz de velas. A luz indicando um possível começo de túnel. É a vida te guiando, é você se vivendo. É o barraco transformando-se em palácio, é o asfalto florindo. Surpresa antes da meia-noite, lua alterando as ondas do mar. Lagarta virando borboleta, bem-te-vi aprendendo a cantar. Provocações risonhas, vontade volátil. Uma sistemática que aprende a permitir-se. Desejo que dá e fica, dá e não permite. Qualquer filme que não se entenda. Escrever na contracapa histórias tatuadas no coração.

É o amor que desabrocha aos 18 anos.

Fugir e perder-se em teus labirintos

setembro 9, 2011

Eu me perco com uma frequência absurda. Hoje já tornou-se necessidade encontrar outros caminhos dentro de mim mesma. Eu sou muito curiosa, mas não o curiosa normal. Curiosa diferente. Apenas curiosa. E aconselho: se percam.

É uma vontade normal de querer fugir. E sempre te dizem que você não pode fugir e coisa e tal. Mas eu sempre planejo uma fuga: eu fujo para mim mesma, eu me enfrento todos os dias. Esse é o meu desafio, eu sou o meu desafio. Os problemas do mundo lá fora são ínfimos, a verdadeira turbulência é a alma que habita aqui dentro. Uma alma agitada, que quanto mais a prendo mais ela se liberta e grita. Pois foi numa dessas fugas planejadas que conheci os labirintos quase imperceptíveis que foram construídos no meu subconsciente.

É, são labirintos. Caminhos enganosos. Precisa-se ter uma tal coragem que eu não sei explicar.

Mas só quem já perdeu-se nesses labirintos que se encontrou. Quando você foge e se perde, é obrigado a memorizar cada parte do labirinto. Você aprende a ser autossuficiente. É incrível o aprendizado, a vida dentro do labirinto. É aterrorizante. Mas só quem se perde que se encontra. E se encontra mais forte, se conhece e tem verdadeiro prazer de ser aquilo que desenterrou. O mundo lá fora já não o prejudicará mais.

É apenas coragem com um pouco de medo. Enfrenta-te a cada dia. Fuja e perca-se em teus labirintos. Conheça-te, para que as ameaças não encontrem um ponto fraco ou um muro mal construído, não destruindo assim teus alicerces.

Agosto entre setembro

setembro 2, 2011

Agosto foi-se rápido. Setembro arrombou a porta.

Ninguém gosta de agosto. Dizem que é o mês do “cachorro louco”, tudo de ruim acontece nesses 31 dias de desespero. É praticamente um inferno astral. Mas o meu calendário de tragédias não segue esse padrão: agosto sempre foi muito bom para mim, sempre me trouxe coisas boas e novas. Como se agosto fosse o começo de um novo ciclo. Porém eu estaria sendo hipócrita ao afirmar que agosto é o melhor mês do ano, que nada de ruim acontece. Eu não sei classificar um fato como ruim; tragédias acontecem a todo momento e eu não sou egoísta o suficiente para declarar que as minhas tragédias agostinas são as piores. Eu parei de ser dramática faz um tempo. Enfim, agosto é agosto. As pessoas tem a mania de pedir ao novo mês que traga boas novas, como se faz uma lista de pedidos e promessas a um ano novo. Seria prudente então tornar domingo um dia sagrado: uma semana nova está por vir. Mas são só dias, são só horas a mais. E você continua ai esperando que “os ventos do novo mês” tragam aquele amor, aquela felicidade, aquele acontecimento que você espera há quase duas décadas.  Tente entender: a vida apenas abre as portas, quem as atravessa é o seu impulso. Chega disso, chega de achar que tudo se resolverá. Pessoas assim me irritam. Mas se você me provar que nada pode fazer, ai é outro assunto que conversaremos depois. Eu quero apenas que se movimente. Vai deixar até quando os outros escolherem o caminho por você?

Setembro. Mais um mês. Mês da primavera, mês de transição de estações, mês de florir. Eu só peço proteção e força. O resto é o resto, eu dou conta.

Cafeína

agosto 30, 2011

Sente-se comigo, venha tomar uma xícara de café. Nós temos muito o que conversar, não acha? Mas é que a minha vida anda uma baderna. Aconchegue-se, vou resumir o que anda acontecendo nesse barco que estou navegando.

Eu me sentia sufocada. Para ser bem sincera, eu estava me sufocando – sufocando com os erros dos outros, sufocando com as verdades não ditas. Achei na solidão forçada um meio de viver de um modo menos aterrorizante. Meus pensamentos andavam empoeirados, mesmo que organizados. É, eu consegui organizar os meus pensamentos. O que era uma avalanche, hoje tornou-se um deslizamento. Eu sentia que era hora de colocar em prática tudo aquilo que eu havia aprendido no último ano. E tudo tem consequências. Eu escolhi as minhas, de certo modo. Não me pergunte o que eu era antes, hoje eu só sei o que me tornei. Enfim, hoje eu sou alguém e tenho muito orgulho disso. Não preciso exibir para ninguém a minha nova forma, eu estando contente e feliz já está ótimo. Mesmo nessa opção de solidão forçada, eu achava que tinha alguém. Realmente tinha. E eu era alguém para alguém. Sabe, nesse tempo eu nunca me senti tão vazia de “sentimentos suicidas”, cheia de um vazio que me fazia flutuar. Eu comecei a me importar; não com os outros, mas comigo. Esses últimos anos eu estava vivendo em função de alguma coisa, não estava vivendo para mim. Mas tornei-me alguém para alguém. Para ele, mais especificamente. Eu já o citei em textos anteriores, mas eu quero lhe dizer uma coisa. Talvez sirva para você e para muitos, pouco me importa. Eu só preciso dizer.

Sempre existe o outro lado, a outra face da moeda. Eu sempre me interessei pelo lado que não fica explícito a todos. As pessoas me interessam. E eu sou curiosa. Posso te afirmar que sou muitas; sou um pouco de cada coisa. Lógico, há certas partes de mim que sobressaem a outras. Essas eu tinha medo de deixar transparecer, mas hoje é diferente. Então eu pouco me importo se alguém é considerado de esteriótipo estranho. Eu amo o estranho. Eu tenho medo do comum, das ações clichês que o padrão tem. E foda-se.

Vai, termina seu café. Eu não me importo se ele vai abrir essa porta e chegar cheio de tatuagens, com aquele estilo todo. Hoje eu só quero que as horas passem rápidas para que eu possa abraçá-lo no fim da tarde. Eu só quero sentir aquela calmaria que eu conheci, eu só quero consumir a carência da presença dele. E também terminar o café para voltar na minha vida que anda ao avesso… mas é que esse avesso me faz tão bem.

Procura-se silêncio

agosto 28, 2011

Talvez eu tenha que ser presa e ser tratada por insanidade. E eu agradeceria, mas tenho exigências: quero uma cela só para mim, sinto-me incomodada pela presença alheia. Eu sou rara, meu amigo; poucos me possuem. Eu te digo, são poucos que me compreendem. Mas por que devo ser presa, isolada? Ora, essa é a minha base, a prisão. Eu deixo a maioria das pessoas loucas, em depressão. De alguma forma eu também sou liberdade. Dependendo da situação, as palavras são algemas e eu sou as chaves. Preciosas chaves. Amigo, eu sou subliminar, entrelinhas. Sou o silêncio, causo o duplo sentido. Sou de quem sabe interpretar um texto de linhas infinitas. Mesmo que seja interessante, não sou sarcástica. Eu observo. E as pessoas não enxergam mais, só veem. Elas deviam ser mais silenciosas, para serem presas. Talvez assim aprendessem alguma coisa e deixassem de ser tão assim, sem graça. Porém, todos nós temos um ponto fraco. Se você olhar no fundo dos meu olhos, há uma possibilidade de me desvendar. Só uma possibilidade. Mas é só silêncio, é só com um olhar que você compreende esse meu silêncio.

Eternity

agosto 24, 2011

O quarto encontrava-se à meia luz, à meia-noite. A decoração era vazia de cor: uma cama, uma mesa de estudos, um tapete felpudo velho e um guarda-roupa despedaçado fazia parte de uma atmosfera bolorenta e úmida do ontem chuvoso. A casa era toda antiga, nunca fora restaurada. Mas acontecia uma reforma, aparentemente invisível a olho nu. Ela, que pertencia ao quarto bolorento, estava largada ao chão, ao seu redor havia folhas e mais folhas soltas, algumas esvoaçando com o vento estreito que entrava da fenda da janela quebrada. Resolveu acender seu cigarro de menta, tentando se organizar. Perguntava-se como poderia ser tão desorganizada, não se importar tanto assim com simetria, medidas ou qualquer merda que envolva arrumar algo. “Não consigo nem entender o mistério por trás da organização dos meus sentimentos, como organizarei a minha continuação no mundo exterior?” – foi a única solução plausível que conseguiu ter. Estava faltando tudo: entrega, amigos, pessoas, amor e uma dose de campari(mesmo sendo horrível). Estava faltando vida. Mas gostava de entender a sua vida olhando de fora, sem realmente viver. Era menos complicado, era mais real e até palpável. E ela queria falar tanta coisa… coisas que não podem ser ditas, por simplesmente não se ter a permissão de expressar as palavras. E as folhas em branco? E a inspiração? Talvez o sistema tenha levado tudo de todos. Ele levou tudo dela, restando apenas a padronização ou o que quer que seja. O sistema é a nova vida, a nova meta e até mesmo o novo foco. Ela? Resumia à sua insignificância, encostada aos pés da cama, fumando um cigarro na esperança de mudança. Entretanto nada via, nada a movia. Mal sabia que a mudança acontecia, a mudança se sentia. O simples fato de pensar a tornara digna de transformação. Ela e o quarto. Ela e o seu mundo.


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